Era tudo certo. E ainda assim.

Quando a gente fala da gente é sempre mais difícil. A exposição pesa, qualquer conclusão parece severa demais ou arrogante demais.

Por isso, hoje resolvi falar de outra pessoa: contar a história de Mariana, uma amiga desde maio de 2018, quando iniciamos juntas em uma empresa do setor de energia elétrica.

Vou narrar essa história a partir de tudo que já me atravessava na época e que hoje, cerca de 8 anos depois, tenho a honra de ter acompanhado — quem sabe até feito parte — de um processo que, sinceramente, não sei se tem muita beleza, mas tem, sim, muita coragem.

Com a liberdade de resumir em poucas palavras, vou dizer que Mari, até mais ou menos os 40 anos, fez escolhas, planejou, priorizou o pilar do trabalho e da carreira. As expectativas foram atendidas, conquistas alcançadas: bons cargos, promoções, reconhecimentos, viagens. Tudo bem alinhado. Ela satisfeita, feliz.

Mas… como assim? Como pode surgir um incômodo? Um vazio? Sei lá se posso dizer que o checklist, de repente, acabou e a vida insistia em amanhecer convidando ao novo. O que sei é que a Mari começou a se ouvir. Um começo ainda resistente. É difícil esse questionamento inicial. Se permitir, sem desvalorizar o que foi feito e como foi feito, dar novos significados às coisas já construídas.

Aqui, antes de continuar a história, vou fazer um breve comentário: não estamos falando de uma “transformação”. Não quero uma narração que venha numa crescente e pareça que ficou melhor, ou que o que tinha antes não estava bom. Nada disso. Deu certo até aqui. Só que agora parecia que algo faltava. E, em alguma medida, aceitar que algo talvez realmente falte já é parte desse processo… Mas ok, vou tentar não ir por esse caminho filosófico.

A Mari, ao longo dos últimos 10 anos, passou por três transições de carreira. Em cada uma, tentou, e vem tentando, aplicar ainda mais intenção e propósito nas escolhas.

Recentemente bati um papo com ela, resgatando toda a sua história, e uma das conclusões mais bonitas que ouvi foi sobre “compreender que o transitório é constante”. Ela enfrentou o desafio de se escutar e mudar o roteiro. Não esconde os medos. Reforça toda ajuda que buscou e o apoio que recebeu.

Obrigada, Mari, por sustentar essa conversa e essa coragem.

E, com ousadia, vou dizer que “roubei” uma de suas perguntas para usar ao longo dos processos que conduzo como mentora:

Quem sou eu agora?

Talvez a coragem esteja menos em mudar tudo
e mais em sustentar essa pergunta.

Próximo
Próximo

Voltando ao início: a escolha pela Engenharia Elétrica